terça-feira, 29 de maio de 2012

A injustiça é cega

Uma das coisas que mais ferem minha alma são as injustiças. Não sei explicar, sempre foi assim, desde criança. Certa vez sumiu um montante de dinheiro da bolsa de minha mãe e, nem me lembro por que, ela cismou que eu tinha pego. Eu chorava, dizia que não tinha sido eu, mas ela insistia. No final lembrou que tinha posto embaixo do telefone. Eu devia ter uns 7 ou 8 anos, mas a agonia da injustiça daquele evento me marcou tanto que me recordo até hoje. Outra vez, ainda nessa época, houve uma festa de aniversário na minha casa e duas coleguinhas da escola ficaram por último. Resolvemos brincar de “gato mia”, em que as pessoas se trancam num quarto escuro e alguém tem que entrar e achar quem está escondido. Coisa inocente e boba, sem nenhuma maldade. Meu avô chegou e começou a gritar conosco, arrastou a mim, a meu irmão e as duas meninas para a sala e nos sentou em sofás separados. Nos olhávamos os quatro com cara de “o que está acontecendo?”. Naquela época, nunca poderíamos desconfiar que aos olhos de meu avô adulto estávamos engajados em alguma atividade sexual dentro do quarto. Era uma criança. Nem sabia o que era aquilo. No dia seguinte, minha mãe veio falar sobre a história, perguntando se tínhamos feito alguma coisa e explicou o quê. Foi quando entendi, dentro do que eu compreendia. Desabei no choro, me sentindo acusado de algo que não tinha feito. Lembro até hoje. Pois injustiças marcam.

Jesus foi injustiçado. Acusado falsamente. Cordeiro sem mancha indo para o abatedouro. Não é à toa que transpirou gotas de sangue: injustiça rasga nossa pele. Rasga nossa alma. Se o Verbo encarnado passou por isso, quanto mais nós, meros mortais. Seremos alvos de falsas acusações. Seremos acusados do que não fizemos nem pensamos. Desconfiarão de nós. Você dará pães e peixes e receberá de volta açoites.

Prepare-se, um dia isso vai acontecer com você. E não será no mundão não: será dentro da igreja. De supostos irmãos. De gente que se chama pelo nome do Senhor. E você ficará ainda mais ferido por causa disso. Quem acusou Jesus foi um de seus apóstolos: Judas. Com um beijo. O traidor acusou Jesus de trair o status quo e, assim, o inocente virou réu de cruz. Imagino o que se passou no peito do Inocente na hora em que recebeu aquele beijo. Meu Deus… deve ter doído. Principalmente porque a injustiça veio da parte de alguém que Jesus chamava “amigo”:
“Dirigindo-se imediatamente a Jesus, Judas disse: ‘Salve, Mestre!’, e o beijou. Jesus perguntou: ‘Amigo, o que o traz?’ Então os homens se aproximaram, agarraram Jesus e o prenderam” (Mt 26.49,50).
Muitas vezes, assim como Jesus, somos aprisionados em injustiças. E, como Jesus, não nos darão chance de defesa. Nossa probidade será açoitada, nossa honra será cuspida, porão uma coroa de espinhos em nossa verdade e pregarão nossas boas intenções numa cruz de vergonha e dor. Não se engane: vai doer. Você vai sofrer por isso. E Deus não afastará de você esse cálice.
“Eis o homem!”, dirão. E você só poderá se calar, carregando nas costas o peso da sua inocência perante as acusações falsas, a desconfiança, o desamor.
Sofrer injustiça tem seus efeitos. Você sentirá sede de justiça e muitas vezes o que receberá será algo amargo como vinagre para saciar essa sede. Precisará de uma palavra de conforto e os que estão ao teu redor te porão ainda mais para baixo. Implorará a Deus por socorro e se sentirá abandonado. É o que João da Cruz chamou de “a noite escura da alma”. E como você estará cravado nessa cruz de desconfiança, não terá o que fazer. Vão lhe insultar a honra, balançando a cabeça, e você estará sem ar nos pulmões para se defender.

Mas aí você pergunta: “Zágari, e o que fazer então diante de um cenário tão pessimista? Não há justiça para a vítima de injustiça?” A solução, querido, querida, está em fazer o que Jesus fez: primeiro, mantenha-se íntegro como você sempre foi. Mantenha-se cristão. Ou seja: siga o exemplo do Cristo. Primeiro, perdoe quem te pôs no banco dos réus. “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo”, deve ser sua primeira atitude. O verdadeiro cristão não é o que revida, aprendi isso com um bom homem de Deus. Sofra calado. E perdoe os que te injustiçam e te acusam de intenções inexistentes. Fale apenas com o Pai, chore em oculto. E, em seguida, continue fazendo como Jesus fez: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Ou seja: entregue a situação nas mãos de Deus.

Quando te acusarem injustamente, desconfiarem de tua honra, puserem tua hombridade em xeque, perdoe quem te injustiçou, sofra calado e entregue a situação. E se você achar que isso é pouco, que deveria berrar e espernear para provar que é inocente, saiba que Deus é Justo. Logo, a injustiça dos homens jamais poderá se equiparar à Justiça de Deus. Se você tentar se defender, Deus permitirá que o faça, mas não interferirá. Mas se você der um passo para trás e deixar o Senhor Bom e Justo tomar conta da situação, chegará o momento em que haverá um grande terremoto, a pedra que oculta a verdade rolará e a verdade virá à luz.

Se neste momento você está sendo alvo de injustiça, meu irmão, minha irmã, saiba que a sua dor e a sua angústia podem durar uma noite ou mesmo três dias. Mas se você depositar a situação aos pés de Jeová Tsidkenu, o ‘Senhor Justiça Nossa”, Ele não deixará que tua carne permaneça na corrupção. E você sairá da sua tumba de vergonha e dor com as roupas resplandecentes, a alma limpa e a honra alva, mais que a neve.
Paz a todos vocês que estão em Cristo.

---

Autor: Maurício Zágari
Fonte: Blog Apenas

Nenhum comentário:

Postar um comentário