sábado, 16 de junho de 2012

A tristeza que alegra Deus

 
“Tem misericórdia de mim, ó Deus, por teu amor; por tua grande compaixão apaga as minhas transgressões. Lava-me de toda a minha culpa e purifica-me do meu pecado“? (Sl 51.1,2)

Li recentemente em um blog a reprodução de um velho texto de um antigo líder religioso cristão. O artigo atesta, em resumo, que “o sentimento de culpa do pecador se opõe à graça de Deus”. Que seriam conceitos excludentes, opostos. Li o referido texto, de 2003, e cheguei a uma conclusão: esse argumento está errado. Bem errado, na verdade. Segundo o artigo, “é sem culpa que nós temos que tratar dos nossos pecados. Pois com culpa apenas os aumentaremos e os fixaremos mais profundamente em nós…como ‘pecados próprios’“. O autor propõe uma graça que desmaterializa a culpa previamente. Já eu entendo que a graça vem em sequência à culpa, como a borracha que apaga o erro. Em suma: entendo biblicamente que a graça de Deus não exclui a culpa do pecador, mas vem como o bálsamo que irá curar as dores dessa culpa e transformá-la em vida e paz.

Acredito que o pastor que escreveu o texto o fez com a melhor das boas intenções. O artigo foi escrito na tentativa de aliviar do coração dos pecadores o peso da culpa de pecados cometidos. Seria uma atitude amável e louvável, se não usasse de um argumento antibíblico. O conceito de culpa é tão execrado pelas pessoas por uma razão bem clara: ele se contrapõe frontalmente ao desejo de ser feliz. Pois culpa gera tristeza. E tristeza é o contrário de felicidade.

E a verdade é que vivemos na era do pseudoevangelho da felicidade, que afirma que o cristão tem que viver “feliz da vida”. Logo, a ideia de que o cristão sentir culpa pode ser algo benéfico como resultado da ação graciosa de Deus (e não em oposição à graça) é ofensiva ao cristão do século 21. Pois eu e você queremos seguir Jesus para sermos felizes, para fugir da tristeza, para nos livrarmos de toda a culpa e assim alcançar o máximo de felicidade que a vida com Cristo poderia nos proporcionar.

Só que há um porém. Se deixarmos de lado a poesia que existe no discurso da “graça anticulpa” e formos olhar para onde realmente importa, a Bíblia, veremos que a proposta de Cristo é que, se a tristeza for necessária, que venha! Jesus jamais, em nenhum lugar de todos os quatro Evangelhos, propõe fora do porvir uma vida de felicidade livre de culpa e de tristeza.

Culpa que funciona como canal da graça

Como funciona então – biblicamente – essa relação entre culpa e graça? A sequência é até bastante lógica:

1. O cristão peca.

2. O Espírito Santo o convence do pecado, da justiça e do juízo.
3. Esse convencimento faz brotar no coração do pecador, adivinhe você, culpa.
4. A percepção dessa culpa o leva ao arrependimento mediante a ação graciosa do Espírito Santo.
5. A confissão do pecado, motivada pela dor da culpa, aciona a ação intercessória de Cristo junto ao Pai e o pecado é lançado no mar do esquecimento.

Porém, pela proposta do texto em questão, automaticamente a graça vem e nos leva a lidar com aquele pecado com uma certa leveza. Afinal, propõe ele, a salvação já nos teria libertado da culpa de ter pecado.

Mas, se assim fosse, como entender as palavras do rei Davi no Salmo 51, rasgado pela culpa após ter adulterado com Bate-Seba e causado a morte de Urias, “tem misericórdia de mim, ó Deus, por teu amor; por tua grande compaixão apaga as minhas transgressões. Lava-me de toda a minha culpa e purifica-me do meu pecado“?

Fato é que a nossa sociedade pós-freudiana pintou a culpa como sendo um mal terrível. Um dos grandes vilões dos nossos dias, geradora de neuroses e infelicidade. Mas a verdade é que, na Bíblia, longe dos consultórios dos psicólogos, a culpa é um mal necessário. Aliás, fundamental. Sem que o pecador seja incomodado pela culpa gerada pelo toque do Espírito (que nos convence do nosso pecado) ele não alcançará arrependimento. Mostre-me um cristão sem sentimento de culpa e lhe mostrarei um cristão que não se arrepende de seus pecados.

Quando o profeta Natã é usado pelo Espírito Santo para mostrar a Davi que ele é réu de pecado, o rei, assolado por seu sentimento de culpa, escreve nos versículos 11 a 14 do mesmo Salmo: “Não me expulses da tua presença, nem tires de mim o teu Santo Espírito. Devolve-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito pronto a obedecer. Então ensinarei os teus caminhos aos transgressores, para que os pecadores se voltem para ti. Livra-me da culpa dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação! E a minha língua aclamará a tua justiça“.

Será que, ao ler essas comoventes palavras de um pecador que busca desesperadamente o perdão, motivado pelo sentimento gracioso de culpa que o levou ao arrependimento, você concordaria com o que o prezado pastor escreveu em seu texto, que “é sem culpa que nós temos que tratar dos nossos pecados“? Lamento, eu não. A culpa redentora da Davi soa mais forte ao meu coração, visto que foi usada como canal da graça de Deus.

A tristeza que alegra Deus

O apóstolo Paulo, ao escrever aos cristãos de Corinto em 2 Co 7.8-11, deixa claro: “Mesmo que a minha carta lhes tenha causado tristeza, não me arrependo. É verdade que a princípio me arrependi, pois percebi que a minha carta os entristeceu, ainda que por pouco tempo. Agora, porém, me alegro, não porque vocês foram entristecidos, mas porque a tristeza os levou ao arrependimento. Pois vocês se entristeceram como Deus desejava, e de forma alguma foram prejudicados por nossa causa. A tristeza segundo Deus não produz remorso, mas sim um arrependimento que leva à salvação, e a tristeza segundo o mundo produz morte. Vejam o que esta tristeza segundo Deus produziu em vocês: que dedicação, que desculpas, que indignação, que temor, que saudade, que preocupação, que desejo de ver a justiça feita! Em tudo vocês se mostraram inocentes a esse respeito“.

Paulo está dizendo que a tristeza levou os cristãos que estavam em pecado ao arrependimento. E diz claramente: “vocês se entristeceram como Deus desejava“, ou seja, a tristeza daqueles cristãos que estavam em pecado, que foram alcançados pela graça, que se viram imersos em culpa… era desejo de Deus! Paulo afirma que o Deus de toda a graça queria que os cristãos de Corinto ficassem tristes por estarem pecando, isto é, que sentissem culpa pelo pecado e mudassem de atitude para que esse sentimento fosse deletado. E o apóstolo usa uma expressão absolutamente fora de moda nos nossos dias e que destoa totalmente do texto que motivou este post: “tristeza segundo Deus“. Ou seja, uma tristeza que vem da graça de Deus e que nos leva a sentir culpa pelo pecado e, logo, tristeza – que por sua vez leva ao arrependimento.

Fato é que o Deus da graça pode usar a culpa como um grande elemento transformador. Ver-se culpado de uma transgressão, como Davi se viu, revela em nós a ação da graça e nos desperta para as consequências do pecado, da justiça e do juízo. E não o contrário. E é essa percepção que gera a vida – mediante nosso arrependimento, nossa posterior confissão de pecados e por fim nossa reconciliação com o Pai.

Freud X Bíblia

Nós, cristãos, temos que abandonar o conceito fredudiano de culpa como elemento destruidor e passarmos a abraçar o conceito bíblico e cristão de culpa como elemento transformador. Para Freud, culpa gera neuroses. Para o Deus da graça, culpa gera tristeza que leva ao arrependimento dos pecados. E, com isso, vida.

Por isso, perdoem-me se discordo da afirmação do pastor que escreveu que “é sem culpa que nós temos que tratar dos nossos pecados. Pois com culpa apenas os aumentaremos e os fixaremos mais profundamente em nós…como ‘pecados próprios’“. Respeito a opinião dele, mas acredito exatamente o contrário: que é com culpa que temos de tratar dos nossos pecados – pois ela é um santo remédio. A culpa age como um combustível para buscarmos com a mesma contrição de Davi o Deus Todo-Poderoso que nos livra da culpa e somente mediante esse contato deixaremos de ser escravos dela – por meio da ação perdoadora, reconciliadora e justificadora do Jesus ressurreto.

Assim, por mais curioso que seja, é justamente a culpa que nos livrará da culpa, pela ação de Deus. E, querido irmão, querida irmã, isso sim é graça: ser culpado mas ser absolvido da culpa sem nenhum merecimento. Pois tudo é mérito da Cruz.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

blog: “APENAS”.

Blog de Maurício Zágari

Um comentário:

  1. Somente nas adversidades que nossa fé e comunhão com Deus aparecem. Às vezes, pensamos estar com nossa fé em alta, porém quando se levanta uma luta, de acordo com nossa reação, saberemos como está a nossa vida espiritual. Deus nos molda no deserto e não nas campinas. Se quisermos mudar e deixá-lo agir em nossas vidas, precisamos confiar e segurar sua mão, dar passos firmes e aceitar a passagem... E do outro lado do caminho, receber inúmeras bençãos e maravilhas.

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