quinta-feira, 13 de março de 2014

Cristãos solitários

 

S09A solidão faz parte da vida de muitos de nós. Não são poucas as pessoas que vivem cercadas por multidões mas, por trás dos sorrisos artificiais, vivem em estado de absoluta solidão. Pessoalmente valorizo muito o estar só, buscar um lugar isolado, sentar-se e ficar apenas pensando, misturando o som de ondas com o de pensamentos – é uma dinâmica extremamente produtiva. Gosto de fazer isso. Como diz Frejat, “às vezes levo o meu corpo para passear”, é por aí. Só que isso não é solidão, é solitude. Embora pelo dicionário os dois termos sejam sinônimos, na vida prática estão muito distantes. É interessante pensar em solitude como uma “atitude de buscar estar só”, é algo voluntário, escolhido, almejado. Já a solidão e mal-vinda, é perniciosa, faz mal, nos envelhece, dá câncer, é feia. Dói.
Quando Jesus buscava isolar-se no monte ou no jardim, ele procurava a solitude. O cristão tem um benefício a mais que pode agregar a esses momentos: a oração. Em instantes de solitude, é possível alternar períodos de reflexão com de oração. Até mais: de leitura – da Bíblia ou de algum bom livro. Em suma, solitude é uma bênção, pois pode reunir três das coisas mais maravilhosas que há: reflexão, oração e leitura.
So0Em contraste, solidão é uma maldição. Ela nos transforma em panelas de pressão, desesperadas por conversar com alguém, sedentas por um pouco de afeto (seja dar ou receber), cheias de sentimentos acumulados a compartilhar… mas não há uma válvula de escape. O resultado é que carregamos universos dentro do peito mas não há ninguém com quem possamos dividir a beleza desse espetáculo cósmico. Solidão é um “eu em mim” involuntário e compulsório.
O ser humano foi feito para compartilhar. Em termos eclesiásticos, o nome disso é comunhão. E, pela enorme quantidade de cristãos solitários que existem por aí, fica clara a urgência que existe de haver uma comunhão mais sincera, ampla e devotada entre nós. Em geral, chamamos equivocadamente de comunhão aquele lanchinho oferecido após o culto, a pizza depois do grupo pequeno, a festa de aniversário de um irmão. Tudo isso é muito bom e tem o seu mérito, mas a verdadeira comunhão não é isso. A começar pelo real sentido do termo: “união comum”. Não necessariamente desenvolver atividades sociais promove união. Acredito que proporcionam contatos e conversas, mas não união. Porque união passa a ideia de se fundir. O que é algo muito mais profundo, que pressupõe mergulhar no coração do outro.
Minha teoria é que há tantos solitários dentro das igrejas porque não conseguimos de fato promover a união. Não abrimos nossos anseios mais íntimos para o outro. Não compartilhamos nossos dramas mais escondidos com ninguém. Não entregamos nosso afeto como fomos feitos para entregar porque há milhões de barreiras sociais, culturais ou pessoais. E, com isso, retemos. Engolimos. Nos ensimesmamos. E, se você vive a solidão, sabe o quão terrível é isso, como um animal selvagem que nos estraçalha por dentro. Ninguém se basta a si mesmo: precisamos uns dos outros.
So4Viver somente para si é uma das coisas mais tristes que há. Jesus chamou seus discípulos de amigos, pois até o Deus humano precisava de comunhão. Ele sofreu ao ver que no seu momento de agonia os amigos dormiram, o abandonando à solidão. Você pode dizer que só a comunhão com Deus importa, que ele supre todas as nossas necessidades. Bem… ai de quem não tem o Senhor para compartilhar. Mas existem coisas para as quais só o ser humano serve. Pense: Deus criou a mulher usando o argumento de que não era bom que o homem vivesse só. Mas… o homem não estava com o Criador no Éden? Então ele não estava só. Conclui-se que o Senhor sabia que certas necessidades emocionais e afetivas apenas outro ser humano pode suprir. Mas muitos preferem empurrar o próximo para Deus em vez de se doar a uma real comunhão. Terceirizam a presença que poderia acabar com a solidão de muitos. Só que, assim como o Senhor nos usa para muitas coisas, também quer que nós sejamos o canal para combater a solidão de nossos irmãos.
Solidão, ao contrário do que muitos pensam, não tem a ver com a quantidade de pessoas com quem você se relaciona. Tem a ver com a qualidade da conexão que se estabelece entre você e o outro. Milhões de pessoas ao redor não são garantia do fim da solidão. Uma única pessoa que seja, mas que tenha acesso ao nosso mais profundo íntimo sim, representa o fim da solidão. Davi e Jônatas que o digam. “Sucedeu que, acabando Davi de falar com Saul, a alma de Jônatas se ligou com a de Davi; e Jônatas o amou como à sua própria alma” (1Sm 18.1).
Em grande parte, a culpa por haver tantos irmãos e irmãs vivendo em profunda solidão é minha e sua. Porque não nos devotamos de fato a amar o próximo como a nós mesmos. Não partimos ao encontro do outro. Não nos disponibilizamos a comungar, ou seja, a participar de uma união que seja comum. Não ousamos. Não nos atrevemos a expor a alma.
So7Oro a Deus que aqueles que guardam gritos presos na garganta encontrem alguém com quem consigam se identificar a tal ponto que tsunamis de sentimentos, pensamentos, tristezas e frustrações possam ser compartilhados e, assim, o caminho para a paz venha a se estabelecer. Pois ter alguém com quem se pode falar tudo, com quem se chore, que nos abrace e segure nossa mão em amor, que olhe nos nossos olhos e saiba tudo sem que precisemos dizer nada… é uma das maiores bênçãos que podemos receber. Bem-aventurados são aqueles que têm nem que seja uma única pessoa especial com quem possam ser eles mesmos em tudo. Pois isso é o início da mais íntima comunhão – e o fim da solidão.
Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício
Blog de Maurício Zágari
http://apenas1.wordpress.com/2013/09/13/cristaos-solitarios/
 

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