terça-feira, 15 de novembro de 2016

Maurício Zágari escreve por que vou ensinar minha filha a dar o dízimo




dizimo 1Existe muito debate em nossos dias com relação ao dízimo. Em grande parte, essa instituição cristã – que não foi questionada por séculos – começou a sofrer muitos ataques nas últimas décadas por causa de abusos cometidos por determinados segmentos que se dizem evangélicos e são adeptos da “teologia” da prosperidade. Esses abusos cometidos com relação aos dízimos e ofertas, capazes de chocar pessoas cristãs ou não cristãs, acabaram demonizando o dízimo e as ofertas fora da igreja e, até mesmo, em certos setores dentro dela própria. Ao ver os métodos absurdos que vêm sendo usados pelos tais para convencer fieis a dar dinheiro para igrejas, com argumentos antibíblicos, os não cristãos passaram a ver a entrega de dízimos e ofertas apenas como um golpe bem aplicado por líderes eclesiásticos espertalhões para enriquecer às custas da credulidade de incautos. Por outro lado, surgiu com toda força um movimento dentro da própria igreja que advoga que não é ordenança bíblica a entrega do dízimo em nossos dias. Pois bem: eu  entrego o meu dízimo. Mais do que isso: estou ensinando minha filha fazer o mesmo. E explico por quê.
Acredito que existem virtudes humanas e cristãs que se manifestam de forma muito mais enfática quando temos de mexer no bolso. Admitamos: poucas coisas na vida são tão importantes para o ser humano como o dinheiro. Trabalhamos, investimos, nos esforçamos e fazemos muitas coisas para poder receber nosso merecido dinheirinho. É com ele que compramos alimentos e outras necessidades básicas e também nos damos ao luxo do supérfluo, aquilo que, se não tivéssemos, não faria nenhuma diferença – mas que adoramos ter. Naturalmente, abrir mão de uma fatia dos rendimentos tira de nossas mãos a possibilidade de adquirir grande parte daquilo que queremos ter, por isso é tão difícil abrir mão de dez por centro de sua renda.
dinheiroEvidentemente, o primeiro argumento contra ou a favor do dízimo deve ser seu fundamento bíblico: seria a entrega do dízimo às igrejas um mandamento bíblico para os nossos dias? Na verdade, esse é o argumento que eu menos quero abordar aqui, pois não tenho nada de novo a trazer a esse debate quanto à canonicidade do dízimo. As discussões sobre isso já foram exaustivamente feitas e estão fartamente disponíveis na internet, você pode pesquisar e vai encontrar argumentos enfáticos contra e a favor do dízimo, com base em muitos argumentos bíblicos de um lado e de outro. Entrar por esse caminho aqui seria chover no molhado. Para esta argumentação, basta eu dizer que, pessoalmente, convenceram-me os argumentos de que, sim, o dízimo é um mandamento bíblico para os nossos dias. Mas há outras questões. Vamos supor que eu acreditasse que não houvesse uma ordem divina para que entregássemos o dízimo. Ainda assim eu ensinaria minha filha a entregá-lo, por diversos motivos. E são esses motivos que, acredito, conferem ao dízimo beleza e virtude.
criancas-259x300Primeiro, eu desejo que minha filha seja uma pessoa generosa. E a única maneira de se aprender a generosidade é abrindo mão daquilo que é importante para você. Não acredito que ninguém nasça generoso, basta você olhar as crianças pequenas, que batem e mordem umas às outras porque querem ficar com o brinquedo do momento. Vi isso repetidas vezes na escola de minha filha, quando ela e seus colegas se estapeavam na disputa por brinquedinhos, livros e outras coisas. Vejo isso sempre que me deparo com crianças no seus primeiros anos de vida. Portanto, acredito que generosidade é uma virtude que se aprende e se desenvolve. Tenho procurado ensinar minha filha a ser generosa, seja estimulando-a a doar parte de seus brinquedos e roupas, seja dividindo o lanche com os amigos, seja aproveitando qualquer oportunidade que eu tenho para dizer a ela que fico orgulhoso quando ela compartilha o que tem. Tenho lhe ensinado que melhor coisa é dar do que receber. Ela já tem seus cofrinhos, onde deposita moedinhas que recebe por uma ou outra razão, e quero ensiná-la a tirar parte dessas moedas para dar a outras pessoas e à igreja. Se isso for bem exercitado, creio estar contribuindo para fazer dela uma mulher generosa e caridosa.
Young woman walking with shopping bags, low sectionSegundo, não quero que minha filha seja uma pessoa materialista, isto é, que valoriza excessivamente os bens materiais e procura satisfação ou compensações em coisas, objetos. Tenho lhe ensinado que não devemos acumular tesouros nesta terra e isso passa por compreender que tudo aquilo que temos nesta vida é passageiro, não tem valor em si mesmo e é apenas um instrumento para coisas maiores, mais valiosas e eternas. Uma excelente maneira de ensiná-la a se desapegar dos bens materiais é mostrando o que verdadeiramente importa, para que ela consiga se desfazer, sem dor no coração, de objetos e valores. Por exemplo, eu jamais digo a ela, em nenhuma ocasião, que uma roupa que ela vista faz com que fique mais bonita; pelo contrário, sempre que ela chega toda orgulhosa para me mostrar uma roupa nova que ganhou eu digo: “Bebê, você deixou essa roupa linda!”. Assim, em tudo o que faço procuro mostrar-lhe o que verdadeiramente tem valor. E tenho ensinado que não se pode servir a Deus e às riquezas, sendo que riquezas se traduzem não só em dinheiro, mas naquilo que se pode acumular a partir do uso do dinheiro. Entregar o dízimo é uma excelente  forma de abrir mão de ter uma série de benefícios materiais em função de algo mais sublime.
ddddTerceiro, eu quero que ela entenda a importância da estrutura que sustenta a Igreja de Cristo nesta terra. Isso pode se referir a diversas coisas, como a igreja local, ministérios de ajuda humanitária, organizações missionárias e muitas outras iniciativas. Procuro mostrar a ela que essa estrutura só existe se nós, cristãos, contribuirmos materialmente para que elas continuem funcionando. Porque qualquer uma delas só é capaz de existir se houver quem a mantenha. Jamais vou ensinar a minha filha que ela deve entregar o dízimo à igreja como uma forma de barganhar bênçãos com Deus. Pelo contrário, vou lhe explicar que o dízimo ajuda a pagar a conta de luz da igreja, a pintar as paredes do santuário onde nos reunirmos, a sustentar os pastores que se dedicam a cuidar em tempo integral das ovelhas, a comprar cestas básicas para ajudar os mais necessitados, a financiar iniciativas que contribuíram para levar o evangelho a muitos lugares. Com isso, estou ensinando que a proclamação do evangelho neste mundo material em que vivemos depende de recursos que só virão daqueles que já foram alcançados pelo evangelho, sem que haja nenhum tom de interesse pessoal nisso; mas, sim, como uma expressão de amor pelo Reino de Deus.
Quarto, ao entregar o dízimo, ela está exercitando virtudes do fruto do espírito, como, por exemplo, o domínio próprio. Quando se deseja comprar algo com aquele dinheiro, é preciso autocontrole para se manter fiel ao propósito de contribuir financeiramente com o dízimo. Assim, quando é difícil tirar uma parcela do seu salário, entregar o dízimo nos ajuda a fazer aquilo que acreditamos acima daquilo que queremos. É um modo de negar-se a si mesmo para seguir após Cristo.
casa sobre a rochaQuinto, é preciso ter muita convicção do que se crê para ser um cristão no mundo de hoje. Não é fácil agir e defender os valores que nos conduzem diante de um mundo para o qual os preceitos bíblicos não fazem o menor sentido. Ao ensinar  minha filha a ser uma dizimista, também estou ensinando que ela deve agir segundo a sua fé e não segundo aquilo que todas as outras pessoas ao redor dizem que ela tem de fazer. Exercitar a entrega do dízimo quando começar a ganhar mesada e assumir isso na frente dos colegas de escola fortalecerá muito a sua firmeza e postura de nadar contra a corrente dos valores mundanos, mantendo-se firmemente alicerçada na rocha. Assim, no dia em que todas as suas amigas resolverem assumir um comportamento sexual em desacordo com a fé cristã, ela terá a capacidade de ser diferente, apesar das piadas e tudo mais que ouvirá. Ou no dia em que todos os amigos da faculdade forem fumar maconha numa festa, ela terá a firmeza de personalidade para não participar quando todos estiverem fumando juntos. Ou, ainda, no dia em que ela for trabalhar em uma empresa em que a maioria de seus colegas desonra a chefia ou até mesmo dá desfalques financeiros, ela conseguirá se manter íntegra e separada de tudo aquilo de errado que for feito ao seu redor. A entrega do dízimo já na infância é um excelente treinamento para fazer o que ninguém mais faz com a cabeça erguida e sem se deixar guiar pelos comentários e pelas críticas dos outros.
Essas são algumas razões que me levam a ensinar a minha filha a importância de entregar o dízimo. Peço a Deus que ela cresça compreendendo os verdadeiros motivos pelos quais nos desapegamos de uma parte da nossa renda, pois acredito firmemente que isso fará com que ela desenvolva muitas virtudes fundamentais para a vida de um cristão. Creio que é um preceito bíblico? Sim, creio. Mas, mesmo que não acreditasse nisso, eu daria o dízimo e estimularia todos que o fizessem, pois o desapego do dinheiro contribui para que qualquer um de nós manifeste qualidades que, simplesmente, não têm preço.
“Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração” (Mt 6.19-21).
Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >

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